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Tua: uma região condenada ao esquecimento Imprimir e-mail
13-Mar-2010

Tua: uma região condenada ao esquecimento Vi o esquecimento a que a linha e as pessoas que vivem nas povoações circundantes estão condenadas. Antes de mim, só se lembravam do “Jorginho e da Rosinha”, os realizadores do doc. “Pare, Escute e Olhe”.
Artigo de Diana Neves.

Em Agosto de 2008, foi desactivada a centenária linha ferroviária do Tua. Há cerca de um mês tive conhecimento de que a linha já tinha começado a ser destruída para efeitos da construção da barragem de Foz-Tua, uma das mais controversas do Plano Nacional de Barragens de Elevado Potencial Hidroeléctrico.

 Assim decidi ir percorrê-la a pé de modo a testemunhar o crime ambiental e social que está prestes a condenar toda a região.

Através desta viagem vi o esquecimento a que a linha e as pessoas que vivem nas povoações circundantes estão condenadas. Raramente avistava alguém e quando o fazia, sentia-me uma extraterrestre. Por andar a percorrer 50 km de ferrovia de mochila às costas, por mostrar interesse em conhecer uma região tão desertificada e as suas pessoas, que em tudo parecem moldadas pela paisagem que as rodeia.

Antes de mim, só se lembravam do “Jorginho e da Rosinha” os realizadores Jorge Pelicano e Rosa Silva do documentário “Pare, Escute e Olhe”, que durante dois anos investigaram sobre aquele lugar e as suas pessoas, e pelos quais todos os habitantes com que me cruzei nutriam grande consideração e carinho. Por terem gritado a realidade de “todos os Tuas” para fora do silêncio da desertificação.

Estas pessoas são as que vivem entre o rio e a sua horta ou vinha. Aquelas que nos oferecem tudo o que têm: o seu tecto, o seu pão, o seu vinho, perante a dureza da caminhada ou meramente as suas pantufas e salamandra perante os meus pés encharcados da chuva e gelo exteriores.

São casais de idosos com os filhos emigrados em França e na Suíça, são adultos que tiveram de ir procurar trabalho para as capitais de distrito apesar das poucas vias de comunicação, são jovens que trabalham na vinha da família na época baixa e vão para a apanha do morango para França na época alta. Pessoas que me receberam com o seu calor, o único que resta depois do abandono das sucessivas promessas dos governos em investimento no interior.

Quanto à barragem, ninguém sabe ao certo até onde chegará, o que sabem chega-lhes pelas telefonias ou pela televisão no café central. Uns dizem até Ribeirinha (aldeia central do documentário “Pare, Escute e Olhe”), outros dizem que irá só até Brunheda (onde ocorreu o último acidente).

Na verdade a partir de Brunheda até à foz do Tua (o chamado Baixo Tua), por onde o rio começa a serpentear entre profundas e espectaculares gargantas rochosas, deixa-se de avistar povoados e os que existem perto da linha foram abandonados (o caso de S. Lourenço, a 16 km da foz).

Aqui, após um dia sem ver gente, avistei a Protecção Civil que seguia pela linha com instrumentação, mais à frente umas geólogas dizendo que a linha estava cortada e que não podia continuar a caminhar, que se faziam ensaios de risco nas escarpas com explosivos. Perguntei pela barragem, disseram que ficaria pela quota 170 m , exactamente a da linha.

Eu tinha feito 400 km desde Lisboa e tinha um objectivo: ver com os meus olhos um lugar de beleza inigualável antes do início de um impensável crime ambiental a que este governo deu luz verde. Embebida pela paisagem única de um traçado que nunca cheguei a fazer de comboio, prossegui para além da destruição dos carris e das retro-escavadoras que impediam o caminho.

Estava a 3 km da foz do rio Tua e a paisagem não podia ser mais encantadora, já se avistavam as vinhas ordenadas do Douro por entre o enquadramento abrupto das gargantas do Tua.

Infelizmente tudo isto já começou a ser transformado no cenário de obra que precede o que virá a ser uma muralha de betão. Uma muralha que não se justifica.

E não se justifica por inúmeros artigos e noticias já publicados aqui.

- Porque a barragem Foz-Tua contribuirá apenas em 1% para o aumento da produção de electricidade (terá uma potência instalada de 324 MW);

- Porque um reforço da barragem do Picote, custando apenas 1/3 do investimento da barragem Foz-Tua, permitiria atingir 75% da potência prevista para a mesma;

- Porque que se o governo se empenhasse comprometidamente nas questões da energia e sustentabilidade perceberia que as políticas de uso eficiente de energia permitiriam baixar a procura de energia e por isso não justificariam tão grande investimento para a construção de mais uma barragem;

- Porque um vale de beleza inclassificável e uma linha de importantíssimo interesse público ficarão debaixo de água em prol de uma barragem sem futuro;

- Porque a falácia do desenvolvimento turístico é facilmente desconstruída e ao que parece não se aprendeu nada com o Alqueva - o aval está dado para outras barragens do PNBEPH igualmente contestadas como a do Sabor e do Fridão;

- Porque o que permite que tão grande crime ambiental seja cometido é a eterna concessão de questões ambientais e energéticas ao interesse e negócio privado, com a crescente descapitalização de empresas estatais, como a EDP;

- Porque investir na ferrovia não é atractivo para os grandes interesses económicos mesmo quando isso significa cortar as principais vias de comunicação com o interior (veja-se que o investimento nas estradas de Lisboa e Porto em 1 ano iguala investimento na ferrovia em todo o país nos últimos 4 anos). 

Apontamento histórico:

Desde a sua construção em 1887, esta linha de 134km que tem o seu início em Bragança, passando por Mirandela e acabando na foz do rio Tua (no Douro), sempre representou uma via crucial de comunicação entre o Norte interior e o litoral (ligação ao Porto através da linha do Douro).

A sua história conturbada inclui desde roubos de carris (caso Carril Dourado pelo qual o empresário Manuel Godinho foi acusado), desactivação “silenciosa” de troços da linha (em 1992, o troço entre Bragança e Mirandela), e quatro acidentes entre 2007 e 2008 (curiosamente após a decisão definitiva da construção da barragem Foz-Tua), levando ao encerramento do troço Mirandela – Foz-Tua em Agosto de 2008.

Actualmente apenas cerca de 18 km são explorados pelo Metro de Mirandela entre Carvalhais e Cachão. (cronologia mais detalhada aqui) e a restante linha a sul do Cachão encontra-se ameaçada pela construção da Barragem.

Movimentos pelo Tua:

Movimento Cívico pela Linha do Tua
Petição pela Linha do Tua
Blogue de Divulgação da Linha do Tua

 

Artigo de Diana Neves

 

 
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