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Os governos europeus face à crise: para que nada mude Imprimir e-mail
26-Mai-2009

"Mudar tudo para que nada mude", a famosa fórmula podia servir de divisa aos governos europeus. As suas críticas ao sistema financeiro e as suas fanfarronices sobre a regulação revelam uma verdadeira económica política de simulacro.

Artigo de Michel Husson

Os factos estão aí: a injecção de dinheiro público nos bancos não foi acompanhada de nenhuma medida de controlo; os planos de retoma são calculados de forma limitada e não beneficiam os que mais precisam deles; a questão dos "prémios" dos executivos das grandes empresas continua a ser cosmética e evita a abordagem da questão mais ampla da repartição do rendimento.

A intenção é resolver a crise no nível mínimo esperando que as coisas possam voltar a funcionar antes de 2010. Mas isto simplesmente não é possível. A primeira razão está no facto de que as medidas tomadas não são suficientes para intervir no sistema bancário e financeiro. Para o conseguir, deveria nacionalizar e rever-se todo o sistema em profundidade, como reconhece The Economist que se uniu a esta opção "desgraçadamente inevitável". O modelo norte-americano baseado no sobre endividamento das famílias não pode voltar a funcionar de forma igual e está em dificuldades para aplicar as medidas de retoma sem colocar em causa as desigualdades sociais. No plano mundial, pesa a maior incerteza sobre o destino do dólar, sobre a amplitude e financiamento do défice norte-americano e sobre a capacidade - e vontade - do resto do mundo em financiar crescimento dos EUA. Por fim, a Europa está a "impulsionar-se" como entidade económica.

Apesar de tudo, os governos preparam um golpe posterior. Segundo as últimas previsões da OCDE, a zona euro deverá terminar o ano de 2010 com uma taxa de desemprego superior a 12% e um défice médio de 7% do PIB. Para voltar à situação normal, a OCDE insiste sobre este ponto: devem assegurar "que as medidas postas em marcha para combater a crise mas que podem ter consequências a longo prazo, devem ser retiradas de forma ordenada". Deverão reabsorver de imediato os défices públicos procedendo a novos cortes das medidas sociais, por exemplo: "para ajudar as pessoas em dificuldades, certos países aumentaram a duração do níveis da protecção social. Se tal acção é compreensível nas circunstâncias actuais, essas medidas devem ser reduzidas quando a actividade económicas recupere".

Este retorno ao normal está fora de alcance. Um certo número de sectores vão sem dúvida recuperar e os jornalistas já se armaram de lupas para descobrir o menor tremor. Os planos de retoma vão dar esperanças mas a perspectiva geral é sombria: não se voltará às taxas de crescimento de antes da crise e a taxa de desemprego estabilizará num nível elevado. O capitalismo entrou num beco sem saída porque não pode restabelecer o modelo neoliberal em todo o seu esplendor e porque não quer por de pé uma espécie de novo fordismo baseado numa progressão mais regular da procura interna e numa repartição menos desigual dos rendimentos.

Temos pois de nos preparar para um largo período de indecisão e de confrontos. Nada é mais perigoso que besta selvagem ferida. Devemos pois esperar uma violência social renovada por parte das classes dominantes com o objectivo de defender os seus privilégios sociais. Se for necessário, apoiar-se-á em posições reaccionárias e nacionalistas. Do lado dos dominados, a defesa das condições de existência imediatas pode permitir dar corpo a um projecto de transformação social confrontando três enormes desafios: estabelecer a correlação de forças necessária para controlar a actividade dos capitalistas; libertar-se da coacção da globalização sem as ilusões soberanistas; ter como objectivo principal o bem-estar social e romper com a religião do crescimento.

Publicado em Politis nº 1049, Abril de 2009

 
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